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Para Curtir: O Crime do Padre Amaro

O Para Curtir de hoje é um “combo livro + filme”. Falarei sobre a obra de Eça de Queiroz “O Crime do Padre Amaro”. Eu li este livro no auge dos meus 14 anos e, na semana passada, um amigo falou tanto do filme que eu resolvi comprar e ver.

Eça de Queiroz foi um escritor português que viveu no fim do século XIX, e resolveu que suas letras iriam chocar a sociedade. Representante do Movimento Realista em Portugal, ele observava as coisas ao redor, as instituições e sua hipocrisia, e resolveu escancarar o que de mais podre havia naquelas relações. A lista de provocações dele ia desde o casamento, incesto, ambição e, principalmente, as estruturas clericais.

Em “O Crime do Padre Amaro”, considerado um dos maiores romances em língua portuguesa, a crítica ficou mais evidente. Podemos pensar, “nossa, mas escândalos com padres, pastores e afins são tão comuns…” Porém, devemos levar em consideração o momento histórico no qual a obra se desenvolveu. É preciso considerar também a forma magnífica como o cotidiano daquele período foi apresentado. A linguagem e os costumes são descritos de forma clara e crua.

No fim do século XIX grande parte da sociedade (principalmente a portuguesa) era dominada pela hierarquia eclesiástica, dessa forma, um livro que denuncia o ‘´crime’ cometido por um padre era uma heresia. Bom, Eça de Queiroz nunca se importou em ser um herege…

O livro, conta a história de Amaro um órfão, criado junto a uma marquesa a qual decide que o destino do menino é ser padre. Amaro, desde a infância, é apresentado como um menino ‘´astucioso’, que por ter crescido rodeado de mulheres, aprendeu com elas arte de ‘´enredar e mentir’. É descrito como um sacerdote sem verdadeira vocação, apenas submete-se às vontades alheias e deixa-se levar. Ingênuo no início, assume todas as falhas de seus pares.

Já ordenado, passa a ser pároco de uma pequena cidade: Leiria. Ali hospeda-se na casa de Joana (amante do seu ‘´padre mestre’) e sua filha, Amélia. Esta, uma moça romântica, inocente mas com sensualidade aflorada. Iniciam um romance, que, obviamente, é proibido. A partir daí, as atitudes de Amaro e dos que estão ao seu redor, passam a ditar as regras da vida de Amélia.

Amaro não deseja perder a comodidade que a vida eclesiástica lhe proporciona. Escândalos devem ser evitados a todo custo. Nesse enredo a vida das pessoas passa a ser orquestrada a partir do acaso que o relacionamento entre Padre e Fiel se desenvolve. Não falarei mais, para evitar spoilers.

Em 2003, o filme mexicano com o mesmo título do livro concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Tendo como protagonista Gael García Bernal, o drama também fez um rebuliço na sociedade mexicana, que até se mobilizou contra a produção. Aqui, na visão do diretor Carlos Carrera, a cidade de Leiria transforma-se em Los Reys, para onde Amaro (um jovem e promissor sacerdote), é enviado após sua ordenação. Ali ele se depara com problemas relacionados à relação entre a Igreja (com a Teologia de Libertação) e as guerrilhas, bem como o relacionamento de padres com traficantes da região. Abalado em suas convicções, Amaro ainda encontra o amor de Amélia, uma jovem extremamente dedicada à religião. Entre o filme e o livro, podemos perceber algumas diferenças de personalidade no protagonista. Mas nada que descaracterize a obra de Eça de Queiroz. O comodismo e a hipocrisia ainda estão lá, guiando os passos não só de Amaro, mas de toda a sociedade.

Digno de uma indicação ao Oscar, o filme traz um roteiro bem amarrado. Gosto da edição de imagens também, que condiz com a simplicidade do lugar (em uma fotografia pálida e por vezes sombria, lembrando a condição clandestina dos personagens). Os diálogos são sussurrados como se grandes segredos estivessem (e estão) se expressando a todo o momento. É interessante notar que o contraponto também se molda à regra dominante. Ao fim, a voz de revolta cala-se, adequa-se ao seu bem estar.

Recomendo o filme. Recomendo o livro.

Existem outras obras muito boas de Eça de Queiroz, adaptadas para TV e cinema. Já viram algumas? Se sim, comentem aí! ;)

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2 Comments

  • Reply
    kelly
    9 de junho de 2011 at 8:32 pm

    Já li o livro e gostei muito. Agora quero ver o filme!

  • Reply
    Isaac
    14 de junho de 2011 at 10:00 pm

    Realmente, tanto o livro quanto o filme são incríveis. A construção dos personagens, realistas, passa por uma designação de maquiavélica crueza e crueldade. Veja só esse trecho da página 331, que mostra o quanto a Amélia se entrega ao Padre como uma típica mulher-objeto:

    Ela concordou logo, como em tudo que saía dos seus lábios. Desde a primeira manhã, na casa do Tio Esguelhas, ela abandonara-se-lhe absolutamente, toda inteira, corpo, alma, vontade e sentimento; não havia na sua pele um cabelinho, não corria no seu cérebro uma ideia, a mais pequenina, que não pertencesse ao senhor pároco. Aquela possessão de todo o seu ser não a invadira gradualmente; fora completa no momento em que seus fortes braços se tinham fechado sobre ela. Parecia que os beijos dele lhe tinham sorvido, esgotado a alma; agora era como uma dependência inerte de sua pessoa. E não lho ocultava, gozava em se humilhar, oferecer-se sempre, sentir-se toda dele, toda escrava; queria que ele pensasse por ela e vivesse por ela; descarregara-se nele, com satisfação, daquele fardo da responsabilidade que sempre lhe pesara na vida; os seus juízos agora vinham-lhe formados do cérebro do pároco, tão naturalmente como se saísse do coração dele o sangue que lhe corria nas veias. “O senhor pároco queria”ou “O senhor pároco dizia” era para ela uma razão toda suficiente e toda poderosa. Vivia com os olhos nele, numa obediência animal; tinha só a curvar-se quando ele falava e quando vinha o momento de desapertar o vestido.

    Esse trecho é fantástico e bem explicita porque a obra é um primor.

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