Quando o ter passou o ser | Chat Feminino
Comportamento

Quando o ter passou o ser

Não percebi exatamente quando as pessoas substituíram o “ser” pelo “ter”, talvez eu tenha tentado ignorar alguns episódios quando criança, estudando em uma escola particular tradicional da cidade quando os coleguinhas ficavam comparando os carros dos pais e o do meu era um fusca na época e talvez eu tenha recebido olhares tortos por causa disso. Pra mim, não fazia diferença, eu não entendia. Era só um carro, que levava a gente de um lado pro outro. A gente tinha um meio de transporte, por si só isso já era suficiente. 

Continuei anos sem me importar. Com a bolsa de marca, o tênis da moda, a calça do momento. Não lembro se passei ilesa às tentações do consumismo (mãe se você tiver lendo isso, pode me denunciar nos comentários), mas entendo que de uns anos pra cá percebi que gosto sim de comprar coisas boas e duráveis, afinal, meu dinheiro não nasce em árvores, mas não entendo a fixação em ter tudo que está na moda para aparentar ser uma pessoa descolada ou que tenho muitas posses

Eu curto uma maquiagem gringa que é mais cara, minha vaidade, o que me permito desembolsar mais dinheiro simplesmente porque dura mais pra mim. Minha última base de festa demorou dois anos e valeu cada centavo do que gastei. Compra inteligente. 

Mas estou desviando o foco do texto, começo falando de maquiagem e me perco, desculpa a pessoa meio aleatória que sou. 

De uns anos pra cá eu comecei a viajar, ainda não viajei o tanto que queria (e acho que talvez nem consiga viu, o mundo é grande demais), mas vivi boas e inesquecíveis experiências e cada volta da viagem eu percebia uma pergunta mais frequente: “e aí comprou o que?” Eu já até fiz um post sobre isso aqui, mas cá estou eu novamente batendo nessa tecla.

Quando se tornou mais importante comprar do que vivenciar as coisas?

“Ah mas você foi naquela loja x?” Não
“Ah mas você não trouxe aquele produto incrível que todo mundo está comprando?” Não 

E daí a pessoa esmorece e parece que a minha viagem não teve sentido. Se eu não estourei meu cartão de crédito, não valeu a pena. Se a minha mala não veio cheia de coisas, “viajou pra que então?

Veja bem, eu gosto de comprar sim. Eu troquei de telefone no exterior, comprei câmera, trouxe uma bolsa “de marca” e uma pulseira Pandora. Trago shampoos de fora ($7 dólares, não tem como ignorar quando o mesmo shampoo custa R$70 aqui no Brasil) e faço compras sim, mas muitas são feitas de oportunidade, dólar barato ou compras que já vou programada pra fazer.

Mas eu prefiro te contar dos Museus que visitei, das pessoas diferentes que vi, de tudo que passei, da Brodway ou do Cirque du Solei. Prefiro contar que passei calor/frio, que as pessoas andam apressado ou que são super solícitas. Que em Alcatraz a pessoa se sente presa e que a vista do Cristo Redentor é uma das mais lindas que já vi, mesmo num dia cheio de neblina. Que chorei feito criança quando desci do avião ou que quase perdi minha prima no metrô.

Um dia o shampoo vai acabar, a roupa vai desgastar, o celular vai ficar obsoleto, as maquiagens vão vencer, mas as experiências são o que ficam, pra sempre. ;) 

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10 Comentários

  • Responder Clayci 11 de Abril de 2016 at 9:50 pm

    Gostaria muito que algumas pessoas parassem para ler esta publicação.
    Estava falando sobre isso com minha mãe esses dias. Na minha família é uma disputa entre primos para mostrar quem está melhor que quem que esquecem de viver.

    Eu compro (e muito), mas compro coisas que me fazem bem. Não faço questão de ter um celular da última geração. Se o anterior funcionar, vou continuar usando ele e por ai vai..

    Vejo as pessoas viajando e preocupadas em mostrar onde estão, que nem curtem o momento =/

    Adorei o texto!

    • Responder Nary 12 de Abril de 2016 at 9:41 am

      Tem muita gente precisando de um sacode na vida né?! Essa disputa acontece em todo lugar, acho tão destrutiva :(

  • Responder Vy 12 de Abril de 2016 at 12:04 pm

    Tô me livrando dessa mania de comprar aos poucos, mas em parte eu “entendo” a cultura de consumo em sociedades que acabaram de passar por um processo democratizante. Até 20 anos atrás a gente não conseguia comprar nada e agora temos o mundo aos nossos pés. É o que acontece com a China também. Não que eu ache legal ter ao invés de ser, mas eu vejo de onde isso vem. Acho que só na Europa eu vejo um pouco que as pessoas não se importam de verdade em consumir. Nos EUA, no Japão, no Brasil… Todo mundo quer mais é comprar e ter o mais novo, o mais caro, o mais MAIS! Espero conseguir manter essa mentalidade de só comprar o que preciso quando voltar…

    • Responder Nary 12 de Abril de 2016 at 3:18 pm

      É um processo constante né? Eu to cada vez mais comprando menos. Desde que eu me livrei de uma ruma de roupa que não cabia mais em mim no final do ano que fui repensando o que comprar. E em viagens, sempre comprei pouco mesmo. Algumas coisas trazia de “estoque” mesmo, não tem como não trazer alguns shampoos de $7 que aqui custa R$70,00.

  • Responder Chell 12 de Abril de 2016 at 2:23 pm

    Nary, te entendo tanto!! Quando voltei de viagem eu não tinha comprado tanta coisa, mas fui em tanto lugar lindo!!! Não consigo entender esse lado tão consumo moda frenética que temos hoje. ADOREI o post e o desabafo, porque penso assim também =D Sou hipócrita porque tenho uma loja? Acho que não, porque a gente faz roupas pra serem AQUELAS roupas especiais sabe? Aquelas que você usa porque mais gosta quando é criança, é isso que quero pra ALpakinha =D

    • Responder Nary 12 de Abril de 2016 at 3:17 pm

      Mas eu entendo vc ter uma loja e comprar pouco, consumo consciente é isso aí :)

  • Responder AMANDA ALMEIDA 25 de Abril de 2016 at 3:11 pm

    Olá Nari, tudo bem?
    É verdade, hoje consumir virou sinônimo de experiência, mas não deveria ser assim. Espero um dia chegar lá, pois ainda sou bem consumista e quando penso em viajar, a primeira coisa que me vem a cabeça é gastar, mas se pensarmos dessa forma não aproveitamos nada, passamos a viagem inteira dentro de lojas sem ver o que o lugar tem de fato a oferecer. Ótima postagem, foi um prazer conhecer seu blog.
    Abraços,
    Amanda Almeida

    • Responder Nary 25 de Abril de 2016 at 4:52 pm

      Oi Amanda,

      com o tempo a gente vai acostumando a perceber o que realmente é importante, as compras são parte mas não um todo, acho que infelizmente isso que acontece com muita gente. A pessoa prioriza as compras. Cada um com seu cada qual, claro, mas pra mim é mais prazeroso lembrar dos momentos especiais. :)

  • Responder Mariana Maia 25 de Abril de 2016 at 4:02 pm

    Adorei o desabafo e concordo. Eu acho tão estranho quem viaja e passa mais tempo visitando lojas do que vivenciando a cidade. Procuro não julgar, mas que estranho isso é. E como vc disse, as experiências é que ficam. Você vai rir é da mancada que deu, vai sentir saudade é do ambiente, e não de um objeto/roupa.
    E é óbvio que compro minhas coisinhas, mas tudo ao seu tempo.

    • Responder Nary 25 de Abril de 2016 at 4:50 pm

      É bem como você disse: tudo há o seu tempo na viagem né? Eu gosto de comprar mas não tomo isso como prioridade.

    Responder