Chat Feminino
Comportamento

Como eu mudei de carreira (e o que aprendi com isso)

Tem gente que sabe, tem gente que não, mas apesar de trabalhar com internet desde 2010, essa não foi a primeira carreira que escolhi pra seguir. Aos 19 anos eu entrei na faculdade e cursei Direito. Olhando pra trás parece uma realidade paralela de um universo distante, a pessoa que eu era com 19 anos não é nada parecida com a que vai fazer 30 agora em junho. Por sugestão da Alyce, vim escrever esse post aqui contando como foi essa mudança e o que eu aprendi no curso de Direito e trouxe pra vida.

Eu me formei no curso e durante os cinco anos da faculdade estagiei em alguns locais que me marcaram muito e levo aprendizados pra vida toda. Meu primeiro estágio foi na Coordenadoria de Penitenciárias, eu era estagiária da Advogada do local e a gente fazia atendimento gratuito aos presos de algumas penitenciárias aqui do RN em parceria com a Defensoria Pública. Sim, eu atendia presos, eu fazia petição em prol de presos. Não me arrependo, aprendi muito sobre as pessoas dentro daqueles locais podres e desumanos.

Aprendi que nem tudo que parece realmente é, com isso comecei a desconfiar mais das pessoas e fiquei um pouquinho mais casca grossa nas relações pessoais. Uma vez um preso disse que não tinha nenhum processo contra ele e tava ali injustamente, ele disse isso com tanta convicção que eu fiquei com pena e assim que cheguei em casa fui correndo no sistema do judiciário pesquisar o nome dele e encontrei SETE PÁGINAS de processos no nome do cara!!! Em cada página devia ter mais de cinco processos listados. Depois dessa eu aprendi a desconfiar das pessoas.

Essa foi uma das histórias que mais me marcou durante o tempo que eu estagiei lá. Eu era tão inocente, coitada. Esse estágio serviu pra que eu aprendesse mais sobre muitas coisas, inclusive direitos humanos e que lugar de preso é na cadeia, mas o poder público por favor melhore aquilo ali porque tenho certeza que são sucursais do inferno.

Depois eu fui pro Procon/RN. Passei duas semanas abrindo processo e depois fui ser Conciliadora. Conciliador é aquela pessoa que faz as audiências no Procon e media a relação entre consumidor e empresa. No Procon aprendi a me impor, a falar melhor, a escrever direito e mais rápido ainda. Aprendi a ter postura profissional e a fazer com que as pessoas me respeitassem. Éramos cinco conciliadores e eu era a única mulher, com uns 20 e poucos anos e uma cara e voz de menina, algumas vezes fui julgada pelas pessoas por causa desses detalhes, então tive que aprender a mostrar que sabia das coisas e que podia resolver problemas. Me apaixonei por Direito do Consumidor e isso hoje me ajuda muito na hora de trabalhar com internet e criar material que vai ser visto por potenciais consumidores de marcas. A gente precisa lembrar e prever o que pode dar errado e saber de Direito do Consumidor nessa hora ajuda a antecipar e evitar crises.

Depois eu fui trabalhar em uma CPL, uma Comissão Permanente de Licitação e lá dentro eu confesso que o trabalho era mais burocrático e sacal do que os outros estágios anteriores.  Era meados de 2008 e o Chat Feminino estava começando a existir. Eu tenho blog desde 2001, e naquela época o bacana era você fazer o seu layout e colocar o blog no ar, na unha, não tinha ninguém que fizesse não.

Aprendi HTML (depois um pouco de php) pra poder codificar os layouts e aprendi a mexer no photoshop pra criar os designs dos blogs. Fui fuçando tudo sozinha, correndo atrás, pegando tutorial e fazendo, errando, acertando e indo. Sempre mantive blogs em paralelo a minha vida e foi natural pra mim aprender a usar as redes sociais e a entender como aquilo funcionava e deveria ser para as outras pessoas, afinal, eu era nativa desse mundo chamado internet desde muito cedo. Sabia o básico pra me virar e sobreviver.

Final de 2009 eu me formei, prestrei OAB e não passei. Comecei a estudar pra concurso e fui mantendo o blog, tudo muito sem pretensão. Em junho de 2010 eu comecei a estagiar em uma agência de publicidade digital aqui de Natal.

Entrei na agência pra trabalhar no suporte. Eu recebia as demandas dos clientes em relação a manutenção dos sites deles e repassava para as pessoas responsáveis. Como sabia mexer em html e php, algumas vezes eu mesma fazia os ajustes necessários.

Por ter trabalhado muito tempo ouvindo consumidores no Procon, eu aprendi rápido a lidar com os clientes da agência e passei a trabalhar 8h/dia. Nesse meio tempo as redes sociais estavam começando a ser encaradas como ferramentas de marketing para as empresas e eu comecei a fazer cursos e estudar mais sobre o assunto.

Como eu vivia aquilo todos os dias, me interessei e fui correr atrás. Fiz muitos cursos, tantos presenciais quanto online. Li livros, apostilas. Usei este blog aqui como estudo de caso muitas vezes para o que eu estava aprendendo.

Como a demanda começou a surgir na agência e eu já estava por dentro do assunto, fiz a transição de gerente de atendimento para analista de mídias sociais. Por algum tempo que desempenhei as duas funções dentro da agência, quando a demanda aumentou, criaram o setor de Mídias Sociais e eu fui ser “chefe” e única funcionária do setor. rs.

Em 2012 eu entrei em um MBA de Gestão da Comunicação e Mídias Sociais em uma universidade aqui do Estado, pra aprender mais e finalmente ter um diploma que comprovasse o que eu sei fazer. Não to falando aqui que o diploma diz alguma coisa, mas eu achei que pessoalmente eu precisaria de alguma comprovação, afinal, eu tinha me formado em Direito, o que eu estava fazendo no meio de uma área completamente diferente?

De lá pra cá eu fiz mais alguns cursos, saí da agência, fui trabalhar como assessora comercial de uma blogueira, fui social media freelancer de algumas marcas de moda, fui conteudista de um site de notícias jurídicas (olhaí o Direito de novo), comecei a trabalhar como social media para uma empresa de consultores de mobilidade urbana, fiz dois cursos de fotografia (fotografia básica e fotografia em estúdio), fiz curso de photoshop avançado com a Adobe, fui assessora comercial junto com a Thálassa, entrei e saí de outra agência e continuo com a empresa de consultores, mas agora eles abriram o leque e dão consultorias pra empresas.

Eu aprendo todo dia uma coisa nova, continuo estudando muito e ainda preciso aprender tanta coisa. A gente nunca pára de aprender, sinto que nunca estarei 100% pronta, mas sigo no caminho.

Mudar de área não é fácil. Especialmente porque eu fiz Direito, as pessoas acham que você vai ser um advogado/promotor/juiz e viver naquela vida ali, mas depois de algum tempo eu percebi que não era pra mim.

Não é tudo lindo, colorido e florido. Eu amo o que eu faço mas tem dias que eu me stresso, me chateio, me aperreio e quero matar um. Amar o que faz não significa que todos as chatices do trabalho vão sumir magicamente, significa que você vai enfrentá-las porque no final vai valer a pena.

Se você não gosta do que faz, mude. A mudança não é de uma hora pra outra, nem é fácil, mas você vai aprendendo a arcar com as consequências do que elas acarretam. Talvez você vá ganhar menos do que ganhava antes e trabalhar mais por um tempo, talvez você tenha que mudar de cidade e ficar longe da sua família, talvez você precise sacrificar um final de semana. Cada caso é um caso. Esse negócio de largue tudo e vá ser um nômade é uma das grandes falácias da sociedade atual. Largar tudo tem muitas consequências e eu decidi arcar com as minhas. Não é suave, mas tem dias que é recompensador.

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12 Comments

  • Reply
    Lívia
    3 de fevereiro de 2016 at 12:33 pm

    Nossa, Nary, esse post veio a calhar.
    Só pra compartilhar: meu pai fez Direito e é advogado há uns 30 anos, convivo bem de perto com a profissão e admiro muito mas tem muuuuita sujeirada por trás… Hoje ele atua como Mediador também (e tô notando que esse é meio que o “futuro” do Direito, né?)
    Estou em uma fase de querer mudar totalmente o foco da minha carreira mas tô aprendendo cada vez mais que o melhor é ir levando as cosias em paralelo, sabe? Se posso dar conta de manter meu emprego e ir “testando” a nova posição que quero enquanto me aperfeiçoo, melhor do que largar tudo.
    Muito obrigada por compartilhar. Me inspira cada vez mais a ir atrás do que quero.
    Um beijo e muito sucesso <3

    • Reply
      Nary
      4 de fevereiro de 2016 at 9:39 am

      Oi Livia,

      que bom que gostou do texto! Eu tva pra escrevê-lo há muito tempo mas nunca saia. rs
      É bom manter os dois “trabalhos” em paralelo, afinal a gnt precisa de um pouco de estabilidade né?
      Espero que dê certo! Beijo!

  • Reply
    Chell
    3 de fevereiro de 2016 at 2:47 pm

    “Amar o que faz não significa que todos as chatices do trabalho vão sumir magicamente, significa que você vai enfrentá-las porque no final vai valer a pena.” maravilhoso!

    Adorei conhecer sua história Nary! Admiro muito seu trabalho e sua pessoa =D

    • Reply
      Nary
      4 de fevereiro de 2016 at 9:37 am

      Ow sua linda, obrigada! <3 Tbm adoro vc e seu trabalho, vc é muito criativa :*

  • Reply
    Bia
    4 de fevereiro de 2016 at 10:25 am

    EEEE, finalmente consegui ler o post :D a Lívia que indicou no Twitter! Também estou nessa de querer mudar de carreira e empreender! Não vejo a hora, mas já sei que não vai ser fácil e nem do dia para o outro! Muito legal ver as pessoas compartilhando suas experiências.

    bjão!

    • Reply
      Nary
      4 de fevereiro de 2016 at 11:37 am

      Aee! :D
      Mudar de carreira não é fácil, mas espero de vdd que você consiga!

      bjjj

  • Reply
    Stephanie Ferreira
    7 de fevereiro de 2016 at 6:05 pm

    Adorei conhecer sua história Nary! Eu tenho este grande sonho de voltar a estudar e trabalhar na área de design, social media, essas coisas… Mas me formei em Gastronomia, amo o que faço e nem por isso eu amo cozinhar todos os dias e todas as horas heheheh
    Me inspirou demais este post,
    Um beijo

    • Reply
      Nary
      11 de fevereiro de 2016 at 12:49 pm

      Que bom que te inspirou de alguma forma! :*** Não sabia que tinha feito gastronomia, acho muito legal!

  • Reply
    Juliana
    1 de julho de 2019 at 10:14 pm

    Oi Nary, tudo bem? Meu nome é Juliana, tenho 23 anos, eu curso Direito e estava pesquisando na internet, o que eu vou fazer quando formar. E estar pesquisando isso me fez chegar até você! Eu estou no 7° período, e até hoje não sei se estou no curso certo, se vou conseguir sucesso no que eu estou fazendo, se vou dar orgulho aos meus pais. Cada dia que tenho que ir pra aula é uma batalha, tem dias que eu sinto que é isso mesmo que eu quero seguir, tem dias que eu fico me perguntando “por quê eu to fazendo isso?”. E isso é até engraçado pra uma pessoa que está a um ano e meio de se formar! Eu nem me formei e já penso em trocar de profissão!! Difícil né?! Mas como você disse “se você não gosta do que faz, mude. A mudança não é de uma hora pra outra, nem é fácil, mas você vai aprendendo a arcar com as consequências do que elas acarretam”. Pode ser que eu demore mais um tempo pra mudar, mas um dia vou mudar, e simplesmente só ser feliz! Obrigada Nary! s2

    • Reply
      Nary
      22 de julho de 2019 at 11:31 am

      Oi Juliana,
      eu entendo tudo isso pelo que você está passando, porque passei por isso.
      Espero que, independente da sua escolha, você seja muito feliz!
      beijos!

  • Reply
    Miguel
    22 de julho de 2019 at 7:05 pm

    Você acabou de salvar a minha vida!!! OBRIGADO!

    • Reply
      Nary
      6 de agosto de 2019 at 12:19 pm

      Oi Miguel,
      que bom que pude ajudar em alguma coisa <3 <3

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